Publicar artigos é fundamental!

Você provavelmente já deve ter ouvido de colegas cientistas pérolas como “publicar artigos é besteira”, “não tenho tempo para publicar, tenho coisas mais importantes para fazer” ou “publico meus trabalhos só em congressos”. Não se deixe enganar: publicar artigos técnicos é uma atividade fundamental para um cientista de verdade. Por que?

Primeiro, a ciência é, antes de tudo, uma cultura humana. Como em toda cultura, a comunicação é fundamental. É claro que fazemos e respondemos perguntas científicas principalmente para satisfazermos nossa curiosidade ou resolvermos problemas. Aparentemente, isso poderia ser feito sem a ajuda de colegas, ou seja, sem comunicação. É o velho mito do gênio solitário trabalhando em isolamento num porão escuro. Absurdo! Mesmo um cientista anti-social, que prefere não conviver com seus colegas, precisa recorrer à literatura científica para aprender, descobrir onde estão os limites do conhecimento e, assim, definir sua linha de pesquisa. Isso também é comunicação – por via escrita.

É claro que diferentes meios de comunicação são importantes, principalmente as palestras, pôsteres, conversas em congressos, aulas e artigos de divulgação científica. Porém, os artigos técnicos (também chamados de científicos) são a principal forma de comunicação entre cientistas. Artigos publicados em revistas científicas sérias (conhecidas como journals) e indexadas em uma ou mais das principais bases de dados (e.g., WoSScopus e Scielo) tornam suas descobertas acessíveis de forma duradoura: o que você comunicou fica gravado, inalterado e acessível para várias gerações.

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Desta forma, é nonsense um cientista falar que não tem tempo para publicar. Quem não publica não está fazendo seu trabalho direito. Uma pesquisa não publicada é como um lindo quadro guardado no porão da casa do pintor: para o resto do mundo, é como se ele não existisse. Portanto, só se pode dizer que um projeto está encerrado, quando suas descobertas (resultados e conclusões) são publicadas. Assim, as informações geradas se tornam facilmente acessíveis e podem vir a ser úteis, contribuindo para o avanço do conhecimento.

Além disso, não basta publicar de qualquer jeito, jogando seu trabalho em outro tipo de porão escuro,  a famigerada “literatura cinza”: isto é, meios de acesso difícil ou temporário. Exemplos de literatura cinza são relatórios técnicos, monografias (e.g. TCCs, dissertações e teses), livros de congressos, folhetos de organizações diversas, jornais, revistas populares e sites da internet. Todos esses veículos são muito difíceis de serem acessados por pessoas de outras países e, muitas vezes, são inacessíveis até mesmo para pessoas de outros estados.

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Monografias acadêmicas em muitos casos nem têm versão online, obrigando o leitor potencial a conseguir um exemplar direto do autor ou da biblioteca da universidade; o que se torna exponencialmente mais difícil conforme o tempo passa. Mesmo os sites da internet não são tão acessíveis quanto se pensa, porque dentre os milhões de sites existentes, encontrar um site específico é bem difícil, especialmente se ele não estiver indexado por boas palavras-chave. Além disso, sites são quase sempre muito instáveis: podem estar online e “bombando” num dia, mas saírem do ar no dia seguinte (por falta de verba ou de interesse). Resumos de congresso publicados online sofrem do mesmo problema dos outros tipos de sites, e costumam sair do ar ainda mais rápido. Fora isso, conseguir um livro de resumos sem ter participado do evento é uma aventura.

De qualquer forma, um outro fator mais importante ainda é a qualidade da revisão dos trabalhos. Só se atinge um alto nível de rigor editorial nas revistas científicas. Esse rigor aumenta muito a credibilidade de um artigo, porque diminui a chance de pseudociência ou má ciência serem publicadas, o que só geraria confusão e não promoveria o avanço do conhecimento. Com um pouco de experiência na Academia, descobre-se que o rigor é baixo nas bancas que corrigem monografias e quase inexistente nos congressos.

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As monografias servem apenas para examinar candidatos a um título acadêmico e os resumos de congresso servem apenas como propaganda de uma publicação recente ou no prelo. Logo, pode-se dizer que um cientista que “publica” apenas resumos de congresso também não está fazendo seu trabalho direito. No caso de cientistas novatos, uma ênfase na literatura cinza demonstra acima de tudo imaturidade e falta de orientação adequada. Porém, quando se trata de cientistas experientes, o apreço pela literatura cinza demonstra incapacidade de fazer pesquisas relevantes.

É claro que todas as formas de comunicação científica são importantes. Porém, a prioridade de um bom cientista devem ser os artigos técnicos. Mesmo projetos de iniciação científica devem resultar em uma publicação decente (i.e., em revista indexada e revisada por pares). Isso não tem nada a ver com pressão de publicação, culto ao Currículo Lattes ou outras paranóias contemporâneas: é apenas uma questão de lógica e compromisso com a pesquisa séria. Afinal de contas, qual é o sentido de fazer uma pesquisa e não divulgar suas descobertas? O número de artigos não importa; o que importa é seguir a máxima: uma descoberta, uma história publicada.

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