Islândia e seu sistema onomástico.

1036
views
Islândia

Sistema onomástico é o conjunto de regras legais ou consuetudinárias (da tradição) que um país (ou uma cultura) adota para dar nomes às pessoas e às coisas. Aqui vou abordar apenas do sistema de nomes próprios pessoais, os antropônimos. A Islândia adota um sistema quase que puramente patronímico, ou seja, o “sobrenome” do filho faz referência ao prenome do pai:

– “Samúel Friðjónsson” significa que Samúel é filho de Friðjón.
– “Aron Gunnarsson” significa que Aron é filho de Gunnar.

Se Samúel tiver um filho chamado Gunnar, o nome completo dele será “Gunnar Samuelsson”.

Se Aron tiver um filho chamado Friðjón, o nome completo dele será “Friðjón Aronsson”.

-PUBLICIDADE-

Se for uma menina chamada Sigríður filha de Samuél, será “Sigríður Samúelsdóttir”. Se for filha de Aron, “Sigríður Aronsdóttir”.

Notem que “-son” está para “filho” e “-dóttir” está para filha, cognatos das palavras inglesas “son” e “daughter”.

E qual é a peculiaridade da Islândia?

É o único país de cultura ocidental a manter esse sistema puramente patronímico, não havendo “sobrenomes” propriamente ditos, pois ele é trocado a cada geração. Várias outras culturas europeias adotavam esse sistema, que foi abolido em épocas distintas ao logo da História.

Nos países ibéricos, Portugal e Espanha, a desinência patronímica é o “-es” nos sobrenomes portugueses e o “-ez” nos espanhóis.

Assim, “Rodrigo Antunes” era o Rodrigo filho do Antônio. E o Nuno filho do Rodrigo era o “Nuno Rodrigues”. E o Marcos filho do Nuno era o “Marcos Nunes”. E o Vasco filho do Marcos era o “Vasco Marques”. E o Martim filho do Vasco era o “Martim Vasques” (ou Vaz). O Pedro filho do Martim era o “Pedro Martins”.

E assim sucessivamente até que em um determinado momento o patronímico se “congelou” e tornou-se um sobrenome como hoje conhecemos.

Na Itália, o sistema era um tanto mais complexo, mas há paralelos. A forma mais evidente é o uso da preposição “Di” (ou “De”).

“Giovanni Di Luca” era filho do Luca. O Pasquale filho do Giovanni era “Pasquale Di Giovanni”.

Outra forma patronímica tipicamente italiana são os sobrenomes que terminam em “-i” (apenas uma parte deles, não todos!): na frase em latim, Pietro filho de Martino é “Petrus filius Martini” (caso genitivo). Com o tempo perdeu-se o “filius” e sobrou apenas o “Martini”.

De uma forma bem “grossolana” (grosso modo), pode-se dizer que a forma patronímica com “Di” ou “De” é mais comum no centro-sul da península itálica, enquanto que a desinência “-i” é mais recorrente do centro (Úmbria, norte do Lácio, Toscana) até o norte.

Muitíssimos sobrenomes vênetos perderam o “-i” por influência das características fonéticas da língua vêneta, daí Martin, Pavan, Meneghel, Visentin etc. Lembrando que a desinência “-i” nem sempre era patronímica, muitas vezes originadas de outras motivações onomásticas.

NA NORUEGA, DINAMARCA E SUÉCIA:

Muitos dos sobrenomes terminam em “sen” (Nielsen, Rasmussen, Petersen). Isso acontece porque antigamente as pessoas simples não podiam usar nome de família, apenas patronímicos, ou seja, sobrenomes originários do nome do pai. As terminações -sen e –datter vem de -søn (filho) e -datter (filha) respectivamente. Então se um homem chamado Jens tivesse um filho, seu sobrenome seria Jenssen, se fosse uma filha seria Jensdatter. No final do século XIX, com a introdução de novas leis, muitas pessoas passaram a usar seu patronímico como nome de família.

ADENDO 1:

Muitas pessoas escreveram nos comentários informando que na Rússia também estaria vigente um sistema puramente patronímico, o que é incorreto. Explico: na Rússia atribui-se um “nome do meio” (Отчество, Otchestvo) que é patronímico, mas esse nome do meio NÃO é o sobrenome da família, mas apenas um nome “cerimonial” da tradição. O presidente da Federação Russa chama-se “Vladimir Vladimirovič Putin”. O sobrenome fixo nas gerações é Putin e ele não muda. O patronímico cerimonial (Отчество) é Vladimirovič pois o pai dele se chamava Vladimir, que por acaso é o mesmo nome dele. Portanto, suas duas filhas se chamam PRENOME + Vladimirovna + Putina. O sobrenome é Putina, pois é Putin flexionado em gênero.

Portanto, a diferença é que na Islândia existe um sistema onomástico patronímico puro em que os “sobrenomes” trocam a cada geração. Na Rússia o sobrenome é fixo e apenas o elemento cerimonial (Отчество) que muda.

ADENDO 2:

Outras pessoas estão escrevendo nos comentários que na Grécia também existiria um sistema patronímico. Isso é absolutamente equivocado. A maioria dos sobrenomes gregos têm origem patronímica (assim como os sobrenomes portugueses Rodrigues ou Mendes), mas o sistema onomástico NÃO é patronímico, pois os sobrenomes tornaram-se fixos há pelo menos 200 anos. Os sobrenomes terminados em -ópoulos (-όπουλος) indicam que aquele sobrenome um dia foi patronímico, mas na Grécia moderna o sistema de sobrenome não é patronímico pois os sobrenomes são fixos, diferentemente do que ocorre na Islândia, em que não há sobrenome, mas um patronímico que muda de geração em geração.

O ÚNICO PAÍS DE CULTURA OCIDENTAL QUE ADOTA UM SISTEMA PURAMENTE PATRONÍMICO É A ISLÂNDIA.

fonte: Daniel Taddone via facebook